domingo, 7 de agosto de 2011

Cursos

Além de meus cursos regulares - aqueles que sou obrigado a oferecer, e meus alunos obrigados a escutar - gosto de apresentar as minhas idéias sobre filosofia, ética e cinema para públicos não especializados, para leigos inteligentes, para não-filósofos na plena acepção do termo, profissionais liberais, funcionários públicos, homens de negócios, advogados, psicólogos ou pessoas buscando nada em geral ou tudo em particular.

Atualmente, ofereço cursos em 3 áreas: CINEMA E FILOSOFIA, FILOSOFIA NO BRASIL E AMÉRICA LATINA e ÉTICAS AFIRMATIVAS E NEGATIVAS.

1. CINEMA E FILOSOFIA.

Descrição mínima desta área: A partir das idéias mestras expostas em meus livros O Cinema pensa (Rocco, Rio de Janeiro, 2006) e De Hitchcock a Greenaway pela história da filosofia (Nankin, São Paulo, 2007), desenvolvo a problemática da formação de conceitos na escrita e nas imagens de cinema, focando problemas tradicionais da filosofia (éticos, epistemológicos, estéticos, metafísicos, lógico-lingüísticos, etc) através da análise de filmes, não como meras “ilustrações” mas tentando entender a capacidade do cinema para gerar conceitos. Alguns cursos são de caráter mais teórico e conceitual; outros são mais específicos e aplicados. Aqui apresento alguns exemplos de cursos que já foram ministrados e algumas propostas novas.


CURSOS INTRODUTÓRIOS (de caráter teórico e conceitual).

O CINEMA PENSA (INTRODUÇÃO À FILOSOFIA ATRAVÉS DA ANÁLISE DE FILMES)

ROTEIRO.
1. Poética de Aristóteles e Neorealismo Italiano.
2. Santo Tomás, Ingmar Bergman, e a questão da Fé.
3. Steven Spielberg e a filosofia da Natureza.
4. A Dúvida Cartesiana e os filmes com fotógrafos.
5. Ética Kantiana no cinema.
6. Pessimismo e Otimismo: Schopenhauer, Buñuel e Frank Capra.
7. Nietzsche e a Violência.
8. Marx, Costa-Gavras, Oliver Stone: Cinema e Política.
9. Heidegger, Entrevista com o Vampiro e a Condição Humana.
10. Wittgenstein e o Cinema Mudo.


FILOSOFIA E CINEMA: PERCURSOS E INTERFACES.

OBJETIVOS: Oportunizar uma reflexão acerca das relações entre cinema e filosofia, tanto em seus aspectos históricos efetivamente acontecidos quanto, sobretudo, nas possibilidades reflexivas e conceituais ainda não realizadas nessas interfaces. Em particular, são estudadas as relações entre as linguagens escritas e articuladas nas quais a filosofia tem achado seus meios expositivos mais tradicionais (numa variedade que transita desde o poema de Parmênides e os diálogos platônicos até o cultivo do ensaio e o aforismo na filosofia moderna), e as linguagens de imagens disponibilizadas pela fotografia e o cinema. Visa-se entender de que maneiras as imagens gerariam conceitos compreensivos do mundo, além de constituírem uma mera “ilustração” em imagens de conceitos previamente gerados no meio escrito tradicional. Neste sentido, o curso se constitui também como uma espécie de filosofia da linguagem aplicada.

PROGRAMA MÍNIMO.

1. Conceitos e Imagens: apresentação de questões. O encontro não anunciado da filosofia secular com o cinema emergente. O “mal-estar” das imagens na tradição intelectual e “apática” da filosofia ocidental. A discussão entre Hegel e Schelling sobre arte e filosofia.

2. Pensando o cinema desde a filosofia. Exposição das percepções que os filósofos tiveram do fenômeno do cinema: Henri Bergson, Walter Benjamin, Theodor Adorno, Maurice Merleau-Ponty, Georg Lukács, Gilles Deleuze, Julio Cabrera. Análises filosóficas de filmes, como tentativas de aplicar as visões filosóficas expostas em casos concretos (ou: como filmes podem ser vistos através de filosofias). Os filósofos do cinema e a literatura.

3. Pensando a filosofia desde o cinema. Exposição das percepções que os cineastas tiveram das problemáticas filosóficas em torno da realização de filmes e outras questões conceituais: Serguei Eisenstein, Robert Bresson, André Bazin, Píer Paolo Pasolini, Alfred Hitchcock, Jean-Luc Godard, Glauber Rocha, Andrei Tarkovski. Análises fílmicas de filosofias, como tentativas de aplicar as visões cinematográficas expostas em casos concretos (ou: como problemas filosóficos podem ser tratados pelos recursos do cinema). Os cineastas filósofos e a literatura.

4. A questão da confluência entre as duas linhas expostas. Cinema e filosofia: distâncias, conexões, cruzamentos, conflitos insuperáveis, influências mútuas.


BIBLIOGRAFIA

ADORNO, Theodor, “Notas sobre o filme” em: COHN G (Org). Theodor Adorno. Ática, São Paulo, 1986.
____. Industria cultural e sociedade. Paz e Terra, 2009 (5ª edição).
____. e HORKHEIMER Max. “A indústria cultural” em: SILVA L (Org) Teoria da cultura de massa. Paz e Terra, São Paulo, 1982.
ANDREW, Dudley. As principais teorías do cinema. Uma introdução. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2002.
AUMONT, Jacques. A imagem. Papirus, Campinas, 2001 (5ª edição).
AUMONT, Jacques. As teorías dos cineastas. Papirus, Campinas, 2004.
BAZIN, André. Qu’est-ce que le cinéma? Editions du cerf, Paris, 1985.
____. O cinema. Ensaios. Brasiliense, 1991.
BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica” em: Magia e técnica. Arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Brasiliense, São Paulo, 1994.
BERGSON, Henri. A evolução criadora. Martins Fontes, SP, 2005.
____. Matéria e memória. Martins Fontes, 2006 (3ª edição).
BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. Iluminuras, SP, 2005.
CABRERA, Julio. Cine: 100 años de filosofía. Una introducción a la filosofía a través del análisis de películas. Gedisa, Barcelona, 1999. (Existem várias re-edições. Tradução italiana: Da Aristotele a Spielberg. Mondadori, 2000. Tradução brasileira: O Cinema pensa. Rocco, 2006).
____. De Hitchcock a Greenaway pela história da filosofia. Editora Nankin, São Paulo, 2007.
____. “Recordando sem ira”. em: Back, Sylvio (Org). A guerra dos pelados. Editora Annablume, São Paulo, 2008.
____. “Para uma des-comprensión filosófica del cine: el caso Inland Empire de David Lynch”. Revista Enl@ce, número 2, Venezuela, Mayo-agosto 2009.
____. “Eutanasia poética. Reflexões em torno de cinema e filosofia” em: Cunha, Renato (Org). O cinema e seus outros. LGE, Brasília, 2009.
CARRIERE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Nova Fronteira, RJ, 1995.
CUNHA, Renato. Cinematizações. Idéias sobre literatura e cinema. Círculo de Brasília, 2007.
DELEUZE, Gilles. L’image-mouvement. Les éditions de minuit, 1983. (A imagem-movimento. Cinema 1. Assírio e Alvim, Lisboa, 2004).
____. L’image-temps. Les éditions de minuit, Paris, 1985. (A imagem-tempo. Brasiliense, SP, 2005).
DIAS, Rosa, PAZ Gaspar, OLIVEIRA Ana Lúcia de (Orgs) Arte brasileira e filosofia. Uapê, RJ, 2007.
EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Zahar, RJ, 2002.
____. A forma do filme. Zahar, RJ, 2002.
FALZON, Christopher. Philosophy goes to the movies. An introduction to philosophy. Routledge, 2002.
FLAXMAN, Gregory (Org). The brain is the screen. Deleuze and the philosophy of cinema. University of Minnesota Press, 2000.
GODARD, Jean-Luc. Introduction a une véritable histoire du cinema. Albatros, Paris, 1980.
HEGEL, G.W.F. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio. Loyola, São Paulo, 1995 (3 volumes).
HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Edições 70, Lisboa, 1999.
HÊME DE LACOTTE, Suzanne. Deleuze: philosophie et cinema. L’Harmattan, 2001.
HITCHCOCK, Alfred. Hitchcock for Hitchcock. Selected writings and interviews. University of California Press, 1995.
LUKÁCS, Georg. Estética. Grijalbo, Barcelona, 1965. 4 volumes.
MASCARELLO, Fernando (Org). História do cinema mundial. Papirus, Campinas, 2006.
MERLEAU-PONTY, Maurice. “Le cinéma et la nouvelle psychologie” em: Sens et Non-sens. Nagel, Paris, 1966.
METZ, Christian. A significação no cinema. Editora Perspectiva, SP, 2007 (3ª).
PASOLINI, Pier Paolo. Écrits sur le cinéma. Institut Lumière e PUL, 1987.
PEÑA-ARDID, Carmen. Literatura y cine. Cátedra, Madrid, 1992.
PESSOA RAMOS, Fernão (Org). Teoria contemporânea do cinema. Volume 1. Pós-estruturalismo e filosofia analítica. Editora Senac, São Paulo, 2005.
ROCHA, Glauber. Revolução do cinema novo. Alhambra-Embrafilme, RJ, 1981.
____. O século do cinema. Alhambra, RJ, 1983.
ROHDEN, Luiz, PIRES Cecília (Orgs). Filosofia e Literatura. Editora Unijui, Ijuí (RS), 2009.
SCHELLING, F.W.J. Filosofia da arte. Edusp, São Paulo, 2001.
____. Sistema del idealismo trascendental. Antropos, Barcelona, 1988.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Editora Unesp, São Paulo, 2005.
____. El mundo como voluntad y representación II (Complementos). Fondo de cultura económica de España, 2005 (2ª reimp).
____. Metafísica do belo. Unesp, São Paulo, 2003.
SOKOLOWSKI ,Robert. Introdução à fenomenologia. Loyola, SP, 2004.
STAM, Robert. A literatura através do cinema. Realismo, magia e a arte da adaptação. Editora da UFMG, 2008.
SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. José Olympio, RJ, 2004 (6ª edição).
TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Martins Fontes, SP, 2002.
TRUFFAUT, François. Hitchcock/Truffaut. Entrevistas. Edição definitiva. Companhia das Letras, 2004.
VITA, Luis Washington. Tendências do pensamento estético contemporâneo no Brasil. Civilização brasileira, RJ, 1967.
XAVIER, Ismail (Org). A experiência do cinema. Edições Graal, RJ, 1983.
____. O discurso cinematográfico. A opacidade e a transparência. Paz e Terra, SP, 2008.
ZIZEK, Slavoj (Org). Todo lo que usted siempre quiso saber sobre Lacan y nunca se atrevió a preguntarle a Hitchcock. Manantial, Buenos Aires, 1994.



CURSOS ESPECÍFICOS (de caráter aplicado).

SARTRE E O CINEMA: O EXISTENCIALISMO EM IMAGENS.

ROTEIRO.
1. Introdução: filosofia e cinema, encontro não marcado.
2. Ser-em-si, nada e contingência: a "noite vazia" de Khouri e os "amores perros" mexicanos.
3. Ser-para-si, existência, consciência e negação: o discreto encanto do
distanciamento. (Buñuel e a sombra do vampiro).
4. Liberdade e escolha: da solidão de uma corrida sem fim (Tony Richardson) ao caso Billy Elliot.
5. Má fé, autenticidade e fracasso: Maurice, meninos não choram e servidão humana.
6. Ser-para-outro e olhar: estando aí, muito além do jardim, numa sonata de outono.
7. Moral existencial: entre a cegueira lúcida (A Prova) e o Clube da Luta.


TEMPO, VIDA, EXISTÊNCIA E LINGUAGEM. CINEMA E FILOSOFIA NOS SÉCULOS XIX E XX, DE HEGEL A WITTGENSTEIN.

ROTEIRO.
1. Conceitos, Imagem e Racionalidade Logopática. Hegel e o Tempo dos Conceitos.
2. Schopenhauer e Nietzsche. Pessimismo, Otimismo, Heroísmo e Violência. Viridiana, O Fantasma da Liberdade, A Felicidade não se compra, Sete Homens e um Destino, Os Imperdoáveis, Assassinos por Natureza.
3. Heidegger e Sartre. O Ser, o Tédio e a Condição Humana. Liberdade e Relações Infernais. O Eclipse, O deserto Vermelho, Zabriskie Point, Baléias de Agosto, Thelma e Louise, Um Sonho de Liberdade, Cenas de um Casamento.
4. Wittgenstein. A questão dos limites da linguagem. O Último Homem, O Cantor de Jazz, Nos Tempos da Diligência.
5. Polêmicas em torno de conceitos e imagens. Acerca da arbitrariedade das leituras filosóficas de filmes: entre hermenêutica e performance.


CONFERÊNCIAS.

1. Inland Empire, de David Lynch: nada para entender (Para uma des-compreensão filosófica do cinema).
2. Por que um cyneasta não pode ser fylósofo? (A recuperação da Trilogia da Terra de Glauber Rocha).
3. Eutanásia poética em Big fish, de Tim Burton e A insustentável leveza do ser, de Kaufmann/Kundera.
4. Algumas considerações (às vezes heideggerianas) sobre cinema chinês.
5. A irreconhecível negatividade do humano e o caráter trans-estético dos conceitos-imagem (O talentoso Ripley, A queda, Corra, Lola, corra, Psicose e o elefante de Gus Van Sant).
6. Sartre e o cinema: o buraco apático da ontologia.
7. Short cuts: idéias soltas sobre cinema e filosofia (Uma conferência em 50 aforismos).
8. Cinema sem morte: reencontro com Eric Rohmer.
9. Antonioni e a trilogia do Impedimento: “Crimes d’alma”, “Il grido”, “L’aventura”.
10. Jim Jarmush: nadeares do nada. (Notas acerca do único diretor existencialista norte-americano).

2. A QUESTÃO DA FILOSOFIA NO BRASIL E AMÉRICA LATINA E SUAS RELAÇÕES COM A FILOSOFIA EUROPEIA.

Descrição mínima da área: A partir das idéias expostas em meu livro Diário de um filósofo no Brasil, estudo a situação problemática do filosofar no Brasil, as idéias vigentes de filosofia e idéias alternativas, os motivos do obstáculo do pensar próprio desde o Brasil e desde América Latina, a dependência cultural e seus desdobramentos, a crítica da filosofia universitária, as relações com o filosofar europeu, a questão da originalidade, a tradição da citação e o comentário, e as propostas de estratégias para ousar assumir o ato singular de filosofar desde os nossos países periféricos.

CURSO: FILOSOFIA NO BRASIL: HOUVE, HÁ, HAVERA?

Roteiro.
1. No Brasil e desde o Brasil: diferença crucial.
2. Filósofos e filosofia: tentando perder as definições.
3. Não houve, não há, não haverá: conjugações da exclusão da filosofia no Brasil.
4. Descobrindo a pólvora: o caso René Descartes (Reflexões sobre originalidade).
5. O filósofo cordial: conversa com Sérgio Buarque de Holanda via Paulo Margutti e Vilém Flusser.

Objetivos.
Trata-se de analisar e tentar reverter os usuais mecanismos de difusão e avaliação de atividades filosóficas, mostrando as condições de um filosofar desde a própria situação reflexiva, quanto o resgate de pensamento filosófico já existente no Brasil no passado e no presente, marginalizado ou ignorado pelos atuais critérios de seleção e difusão da filosofia. Analisar com profundidade sistemática e sólidos conhecimentos históricos a passagem da filosofia pré-profissional para a fase profissional, na primeira metade do século passado, estudando os principais filósofos brasileiros desse período: Tobias Barreto, Silvio Romero, Arthur Orlando, Farias Brito, Graça Aranha, Renato Kehl, Vicente Licínio Cardoso, Oswald de Andrade, Jackson de Figueiredo, Pontes de Miranda, Artur Versiani Veloso e Mário Ferreira Dos Santos, entre outros.

A filosofia profissional ganhou uma indiscutível capacidade analítica para comentar filosofia de maneira competente, mas perdeu ou debilitou pelo menos três características fortemente presentes no pensamento pré-profissional: a ousadia de tentar pensar por si mesmo, mesmo enfrentando a possibilidade do fracasso; a preocupação pela inserção nacional do pensamento (sem nacionalismos ou regionalismos, mas fugindo de um universalismo abstrato); e o interesse pela leitura mútua e a escrita de textos de filósofos brasileiros sobre outros filósofos brasileiros. Parte-se da idéia de haver atualmente, em pleno período profissional, filosofia sem filósofos, e de ter havido, no período pré-profissional, filósofos sem filosofia. O ideal seria, a partir de agora, tentar recuperar o espírito filosófico dos pré-profissionais e as possibilidades técnicas de fazer filosofia do período atual para termos, finalmente, filósofos com filosofias.

Se filosofar admite ser concebido como um tipo de captação, recriação ou construção do real, sempre feita através de uma perspectiva geográfica e temporal sui generis, falar de filosofia brasileira (o mexicana, ou chilena ou alemã) não responde a qualquer critério nacional que escolheria certos autores por serem (por exemplo) brasileiros; mas, pelo contrário, apresenta uma resistência ao fato de deixar de lado esses autores apenas por serem brasileiros; exclusão que sim pareceria responder a um critério puramente nacional.

Trata-se de estudar as teorias estéticas, éticas, gnoseológicas e político-jurídicas dos filósofos brasileiros clássicos antes mencionados (e outros), e das atuais produções filosóficas, sempre em contato com os pensadores europeus e norte-americanos, mas tentando traçar também relações com outros pensamentos latino-americanos (como o pensamento mexicano e o rio-platense), procurando não uma “integração”, mas um mútuo conhecimento, com o objetivo de melhor entender a nossa inserção no atual panorama das idéias filosóficas no mundo, sem cortes arbitrários ou ideológicos.

Estas idéias receberam forma sistemática no meu livro DIÁRIO DE UM FILÓSOFO NO BRASIL (Será lançado em 2010). O professor Jorge Jaime, autor da História da Filosofia no Brasil (em 4 volumes publicados pela Vozes), escreveu um comentário ao DIÁRIO, do qual conheceu uma primeira versão, e o publicou sob o título de: “Diário de um filósofo no Brasil”, no livro TEMAS FILOSÓFICOS (Rio de Janeiro, 2003).


3. ÉTICAS NEGATIVAS E AFIRMATIVAS.

Descrição mínima da área: A tradição ética na filosofia européia tem sido predominantemente afirmativa, no sentido de pressupor como axioma indiscutido um valor do ser humano enquanto tal. Éticas negativas são, inicialmente, aquelas que contestam, após a queda dos referenciais religiosos de pensamento, um pretenso valor do ser humano, seja criticando o sentido atual do problema, seja contestando a concepção do ser humano como pessoa, seja, numa linha mais radical, através de uma demonstração filosófica da falta de um valor intrínseco da vida humana. Tenta-se, depois dessa tarefa deconstrutiva, examinar quais seriam as possibilidades morais liberadas pelo pensamento negativo.

CURSO: NASCIMENTO, MORTE, ÉTICA E VALOR DA VIDA HUMANA.

Introdução: Ética, condição humana e “questões mortais” (nascimento e morte: próprias e de outros). A articulação ética fundamental (AEF). A moralidade num viés existencial.

Unidade 1. Elementos ontológicos para uma ética negativa. Apropriação da diferença ontológica (ser e ente) pelo pensamento negativo e a sua relevância para a questão do valor da vida humana. A idéia heideggeriana do ser-para-a-morte, e a vinculação interna entre morte e nascimento.

Unidade 2. Valor da vida humana. Pontos de vista tradicionais sobre a questão do valor da vida humana. Valor sensível e valor moral da vida humana. O valor da vida humana numa perspectiva ontológica: restituição da simetria vida/morte. (Discussão com Thomas Nagel). Mortalidade do ser: sofrimento e inabilitação. A contribuição de Schopenhauer para a captação do caráter estrutural do sofrimento. Condição humana: o delicado equilíbrio entre a estrutura mortal do ser e a criação intramundana de valores.

Unidade 3. A questão moral: éticas afirmativas e negativas. Condição humana e moralidade. Viver ético e ética do viver. Bases para uma moralidade negativa decorrente da visão ontológica do valor da vida humana: a igualdade e inviolabilidade negativa dos seres humanos como base para uma nova moralidade. As éticas negativas no panorama geral das éticas contemporâneas.

Unidade 4. A morte e o matar de um ponto de vista ético-negativo. (4.1) Matar outros (Heterocidio): “legitima defesa”, guerra, “pena de morte”. (4.2) Matar a si mesmo (Suicídio): a rejeição do suicídio pelos filósofos. Argumentos bioéticos generalizados: suicídio assistido e eutanásia.

Unidade 5. O nascimento e o procriar de um ponto de vista ético-negativo. Se – após a queda do referencial religioso - o tirar a vida coloca problemas éticos, porque o dar a vida não os colocaria? A procriação do ponto de vista ético: os argumentos ontologico-estructurais e os argumentos da manipulação e objetivação do outro. Abstenção de procriar: fundamentos éticos.

Conclusões. De como uma vida negativa pode ser mais plena e responsável do que uma vida totalmente afirmativa. Perigos do afirmativismo. Vivência e sobrevivência: novos caminhos.


BIBLIOGRAFIA
BENATAR David. Better never to have been. The harm of coming into existence. Clarendon Press, Oxford, 2006.
BOBBIO Norberto. El problema de la guerra y las vías de la paz. Gedisa, Barcelona, 2000 (1a reimpressão).
BORGES Maria de Lourdes, DALL’AGNOL Darlei, VOLPATO DUTRA Delamar. Ética. DP & A Editora, Rio de Janeiro, 2003.
CABRERA Julio. Projeto de Ética Negativa. Mandacarú, São Paulo, 1989.
____. Crítica de la Moral Afirmativa. Una reflexión sobre nacimiento, muerte y valor de la vida. Gedisa, Barcelona, 1996.
____. “Dussel y el suicídio”. Revista Dianoia, volume XLIX, 52, México, maio 2004.
____. “Sentido da vida e valor da vida: uma diferença crucial” Revista FILÓSOFOS. Volume 9, Número 1, Goiânia, 2004.
____. “O que é realmente ética negativa?” (incluído em: PIMENTA Alessandro (Org). Poliedro, Faces da filosofia. Publit, RJ, 2006).
____. “A questão ético-metafísica: valor e desvalor da vida humana no registro da diferença ontológica” (incluído em: GARRAFA Volnei e outros. Bases conceituais da bioética: enfoque latino-americano. Gaia, Unesco, São Paulo, 2006).
____. “Ética e condição humana: notas para uma fundamentação natural da moral (contendo uma crítica da fundamentação da moral de Ernst Tugendhat)” (incluído em: NAVES Adriano (Org). Ética: questões de fundamentação. Editora da UnB, Brasília, 2007).
____. “O imenso sentido do que não tem nenhum valor”. Revista PHILÓSOPHOS.
____. “Suicídio. Aspectos filosóficos”, “Suicídio. Abordajes empíricos”, “Muerte, mortalidad y suicídio”. (Verbotes do Diccionario Latino-americano de bioética. UNESCO, Universidad Nacional de Colombia, 2008).
____. (Org) Ética negativa: problemas e discussões. Editora da UFG, Goiânia, 2008.
DWORKIN Ronald. Domínio da vida. Aborto, eutanásia e liberdades individuais. Martins Fontes, SP, 2003.
ENGELHARDT H. Tristam. Fundamentos de bioética. Loyola, SP, 1998.
HABERMAS Jürgen. O futuro da natureza humana. Martins Fontes, SP, 2004.
HEIDEGGER Martin. Ser e Tempo. Vozes, Petrópolis, 2 volumes, 1995/96.
INWOOD Michael. Dicionário Heidegger. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2002.
HUMPHRY Derek. Final Exit. Delta Trade, 2002.
KANT Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Edições 70, Lisboa, 2002.
NAGEL Thomas. Ensayos sobre la vida humana. Fondo de Cultura Económica, México, 2000 (2a edição).
NAGEL Thomas. Visão a partir de lugar nenhum. Martins Fontes, São Paulo, 2004.
PARFIT Derek. Reasons and persons. Clarendon Press, Oxford, 1987 (reimpr).
RUSS Jacqueline. Pensamento ético contemporâneo. Paulus, São Paulo, 1999.
SCHOPENHAUER Arthur. O mundo como vontade e representação. Contraponto, Rio de Janeiro, 2001.
SINGER Peter. Ética Prática.Martins Fontes, São Paulo, 1994.
SINGER Peter. Repensar la vida y la muerte. El derrumbe de nuestra ética tradicional. Paidós, Narcelona, 1997.
TIMM DE SOUZA Ricardo. Sobre a construção do sentido. O pensar e o agir entre a vida e a filosofia. Editora Perspectiva, SP, 2003.
TOMASINI BASSOLS Alejandro. Pena capital, y otros ensayos. Interlínea, México, 1997.
WILLIAMS Bernard. Moral. Uma introdução à ética. Martins Fontes, SP, 2005.

ERRATA no livro A Ética e suas Negações

No início do capítulo I. Paternidade e Abstenção, a editora Rocco cometeu um terrível erro: eles simplesmente suprimiram uma linha que prejudica totalmente a compreensão da primeira frase. A frase completa é a seguinte:



Durante toda a história da Filosofia, a Ética tem sido Ética do ser, o imperativo moral básico foi sempre ‘Deve-se viver’, e tudo o resto, uma justificativa desse imperativo.



 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | cheap international calls