domingo, 7 de agosto de 2011

Filosofia

Filosofia


Não faço aqui uma descrição do que, de fato, tem sido a atividade filosófica ao longo dos tempos, mas uma consideração pessoal, e, de certa forma, programática e convidativa, acerca de como eu assumo a filosofia e o filosofar.

Faço isso em dois momentos reflexivos. Num primeiro momento, filosofar é, para mim, a maneira fundamental de instalação do homem no mundo, uma maneira insegura, temerosa, ignorante, insatisfeita, desejante, incompleta e sofredora. Vinculo filosofar com desamparo. Filosofar é o próprio clamor da finitude, seja qual for o âmbito ou nível onde ele se manifeste. Desse desamparo ignorante e sofredor nasce um poderoso desejo de esclarecimento, perpassado por um desejo de bem-viver e bem-morrer: todos os humanos querem compreender mais para tentar viver e morrer melhor.

Estes desejos primários estão presentes em todas as pessoas, de maneira que, neste primeiro momento, e tal como sempre era dito antes da profissionalização da filosofia, todos somos filósofos pelo simples e terrível fato de sermos na peculiar maneira humana de ser, seres finitos, mortais, ameaçados, desamparados, ignorantes, perguntantes, jogados num mundo inóspito. No meio do tumulto de suas preocupações cotidianas e de seus dramas pessoais, surgem de vez em quando em todas as pessoas, letradas ou analfabetas, inevitavelmente, as questões essenciais: o sentido, a morte, a dor. Essas questões são de imediato sepultadas pela maioria, ou deixadas de lado; por longos períodos, vive-se como se não existissem.

Num segundo pensamento sobre filosofia, pelo contrário, quase ninguém é filósofo, nem mesmo a maioria dos professores de filosofia. Pois filósofos são aqueles seres perguntantes e faltosos que transformam a sua finitude ameaçada numa obsessiva busca pelo esclarecimento - mesmo quando ela é perigosa e instável - e numa poderosa forma de sensibilidade (e de sexualidade!) que manifesta total prioridade sobre qualquer outra preocupação; não porque o filósofo assim se o proponha, mas porque ele é lançado de maneira compulsiva para essa peculiar forma de existência.

É como se o filósofo, nesta segunda acepção, exacerbasse ou levasse ao paroxismo aquilo que é momento fugaz e dispensável na maioria das pessoas. Se estas sepultam seus desejos filosóficos (de esclarecer, esclarecer-se, bem-viver e bem-morrer), o filósofo neste segundo sentido é alguém que não consegue sepultar ou ocultar, e para quem aquelas questões ansiosas e incômodas são sua atmosfera permanente, o ar que respira, o centro de gravitação e organização de seu particular modo de existência.

Neste segundo momento reflexivo, o filósofo é alguém que não conseguiria dedicar a sua vida toda a alguma atividade específica (como o comercio ou o exercício de uma profissão liberal), e se alguma vez o fizer, será por absoluta necessidade de sobrevivência (rapidamente superada se realmente for filósofo). Ao filósofo lhe resultaria desesperador dedicar sua vida a qualquer atividade que lhe impedisse refletir sobre aqueles desejos primordiais. Ele não poderia manter sua existência em apenas um setor do real e dedicar-lhe a totalidade de suas forças. Nesse sentido, o filósofo é um fracassado, estuda filosofia quem nunca conseguiria ser engenheiro, médico ou advogado, mesmo bem titulado, mesmo sabendo que poderia exercer essas funções de maneira competente e proveitosa.

A obsessão pelo esclarecimento, a suscetível sensibilidade para tudo o que é finito, incompleto e inseguro, para a constante ameaça do mundo, para o desamparo sem consolo, trazem novos infortúnios para o filósofo, e não algo como uma “sabedoria de vida”. Pelo contrário, os humanos que simplesmente existem o drama de serem humanos sem refleti-lo, possuem forças, defesas e sabedorias que o filósofo perde no instante mesmo em que se põe a refletir. Neste sentido, o filósofo não tem qualquer sabedoria para oferecer; pelo contrário, passará a vida tentando recuperar, mediante o pensamento, a sabedoria que acreditava ter quando não era filósofo (Wittgenstein: um exemplo tragicômico disto).

A filosofia profissional baniu o motivo existencial presente nestas duas concepções do filosofar. A atividade filosófica é agora uma tarefa institucionalizada mais do que um modo de existir. A filosofia profissional potencializou os meios de indagação de assuntos e, de certa forma, os levou a um grande aperfeiçoamento desde o ponto de vista de sua tecnicalidade instrumental. Também os transformou num poderoso mecanismo de dominação. Mas a filosofia profissional não criou nada, simplesmente processou e interpretou a finitude de uma maneira particular. O desamparo fica como oculto ou camuflado embaixo das formas profissionalizadas do filosofar, tanto na filosofia analítica quanto, por exemplo, nos estudos dos "especialistas em Nietzsche". A fragilidade intrínseca a todo filosofar (a todo viver) fica disfarçada numa maneira aparentemente firme, segura e técnica de "dominar os assuntos" e "construir argumentos". Mas nem mesmo ali o filosofar consegue esconder seu desamparo original.

A filosofia profissionalizada se perde nos encantos do comentário, a exegese, a citação, a autoridade e a erudição, onde a filosofia transforma-se num trabalho como outro qualquer, no qual podem empenhar-se todo tipo de pessoas, mesmo aquelas sem uma grande sensibilidade, obsessividade e envolvimento existencial nas questões formuladas. A filosofia representa nas vidas da maioria de seus praticantes apenas mais uma inserção institucional, ao lado da família, os grupos de trabalho e o estado. Trata-se de um tipo de produtividade como outro qualquer. A filosofia transforma-se num “setor do real” ao lado da odontologia, o direito e a jardinagem, e um filósofo profissional é alguém capaz de dedicar a totalidade de suas forças ao estudo funcional desse setor do real.

Em nenhuma das duas concepções do filosofar, é o primordial a aquisição de informações. Pelo contrário, de certa forma, filosofar é uma maneira de desinformar-se, de descartar informações, de virar-se com o que se tem, de fazer reflexões mínimas sem deixar-se atordoar pelo excesso de dados. Como filósofos não se trata de "saber mais", mas de "ser mais" através de uma indagação sobre o mundo. Pelo contrário, vista da perspectiva profissional, um filosofar existencialmente norteado parecerá sempre “pouco sério”, irresponsável e diletante, na estrita medida em que ele mostra abertamente sua fragilidade e seu caráter tateante e inseguro. (De um ponto de vista funcional, decididamente viver não é sério).

Mas nada impede que um filósofo seja professor de filosofia, como Kant, Hegel, Fichte, Heidegger e Wittgenstein o foram. Pois muitos pensam que ocupar uma cátedra na universidade é sinal de não ser um filósofo genuíno; que os filósofos genuínos são aqueles que nunca lecionaram em universidade, como Spinoza, Hume ou Schopenhauer. Na verdade, para o filósofo, é irrelevante ocupar ou não uma cátedra universitária. (Kant é tão filósofo quanto Schopenhauer). Ele poderá curvar-se diante da filosofia profissionalizada ou poderá tentar fazer a sua filosofia dentro dela.

Dentro do escopo da minha segunda visão da filosofia (filosofia como uma atividade muito peculiar) a minha idéia é que a filosofia tem uma natureza múltipla, e que a partir dela surgem muitos tipos de textos (orais ou escritos) que podem considerar-se filosóficos: desde textos de análise lógica a textos existenciais e autobiográficos. A filosofia, como eu a entendo, vai de Carnap a Kierkegaard com toda naturalidade. Nunca gastei meu tempo tentando mostrar que algum destes autores "não faz filosofia" ou que "não é filósofo". Não assumo nenhuma atitude de escândalo diante da multiplicidade ou do "caos" do termo "filosofia", ou de impaciente exasperação diante de sua "indefinição", pois vejo a multiplicidade do filosofar como um desdobramento de sua mesma natureza, tal como eu a entendo, não como um penoso acidente histórico a ser lamentado e resolvido.

A filosofia, como a vida mesma, desenvolve-se num continuum vital de pensamentos, desde a máxima articulação lógico-analítica até o mergulho existencial no fluxo do vivido. Análise e existência são suas polaridades, e as filosofias se desenvolvem numa gama rica e variada dentro desses extremos. Em todos os países houve flutuações desde um extremo ao outro, e sempre a tentação de marcar o lugar da "verdadeira filosofia" num deles excluindo o outro.

Pessoalmente, fiz uma filosofia da lógica que tende ao articulado (ver Filosofia da Lógica), e uma filosofia da ética fluída e existencial (ver Ética Negativa). Não obstante isso, na dinâmica de minha obra, as duas coisas tendem para seus contrários: a minha ética tende para a argumentação lógica, e a minha lógica tem bases nietzscheanas. A existência tende à análise, a análise à existência. As duas polaridades da filosofia perpassam a totalidade de meu pensamento.



TEXTOS


Acerca da Vulgarização da Filosofia Através de “Introduções”.

Como fazer coisas-em-si com palavras
http://hdl.handle.net/10482/10189

Por qué no agrado a los rebeldes

Ética e Violência da Criação Filosófica

Homossexualismo e Filosofia
o Caso Wittgenstein 

O Mito da Crise: Suspeitas Acerca da Legitimidade do Conceito. 
(A Noção de “Crise” e a Questão da “Morte da Filosofia”). 



ERRATA no livro A Ética e suas Negações

No início do capítulo I. Paternidade e Abstenção, a editora Rocco cometeu um terrível erro: eles simplesmente suprimiram uma linha que prejudica totalmente a compreensão da primeira frase. A frase completa é a seguinte:



Durante toda a história da Filosofia, a Ética tem sido Ética do ser, o imperativo moral básico foi sempre ‘Deve-se viver’, e tudo o resto, uma justificativa desse imperativo.



 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | cheap international calls